segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Uma Cidade Nas Nuvens

Existe alguma relação entre as pirâmides do Egipto e as dos Andes?

Muito antes de os conquistado¬res espanhóis invadirem o Peru - na realidade, muito antes de os Incas criarem o seu império - , já a misteriosa cidade de Tiahuanaco se encontrava em ruínas. O seu povo desaparecera entre a neblina dos Andes. Apenas as ruínas dos seus monumentos testemunhavam a maestria dos construtores de Tiahuanaco, que edificaram pirâmides no céu.
Os habitantes de Tiahuanaco não dispunham de animais de carga, desconheciam a roda e apenas possuíam instrumentos feitos de pedra. A sua cidade nas nuvens ergue-se para lá dos limites do arvoredo nos Andes, cerca de 5 km acima da fronteira entre o Peru e a Bolívia. No entanto, estes homens conseguiram transportar blocos de pedra pesando mais de 100 t de uma pedreira situada a 40 km de distância, através de um planalto acidentado e da vastidão cinzenta do Titicaca, o lago mais elevado do Mundo.
Uma vez no local, os blocos - cujas di¬mensões eram consideravelmente superiores às dos utilizados no antigo Egito - eram alisados com tal pormenor que se corrigiam mesmo irregularidades de 0,5 mm e talha¬dos com a forma de troncos de pirâmide.
Subsistem em Tiahuanaco três destes mo¬numentos: a Akapana, ou Fortaleza; o Kalasaya, ou Templo, e o Palácio das Dez Por¬tas. Pelos relatos feitos pelos Espanhóis, que primeiro visitaram o local, deduz-se que no século XVI existiam muitos mais.
A maior das pirâmides é a Akapana, uma elevação natural talhada c revestida de pedra até se transformar numa montanha feita pelo homem, de 150 m de largura e 210 de comprimento, erguendo-se 15 m acima da planície. O maior bloco de pedra é também a maior peça de pedra talhada que existe no Mundo: um monólito de 200 t talhado, que se ergue à entrada do Kalasaya.
A seu lado encontra-se a primeira de 2 pistas arqueológicas que ajudam a identifi¬car os fundadores de Tiahuanaco. É unia fi¬gura, esculpida em rocha, do deus da cidade, representado a chorar - conhecido nas len¬das índias como Con-Tici Viracocha.

Barbas e orelhas grandes

Segundo as lendas das tribos dos Andes, transmitidas de pais para filhos, Viracocha era um homem branco de elevada estatura, rosto quadrado, olhos azuis e cabelo louro tonsurado como o de um monge. Na escul¬tura, o seu cabelo está oculto sob um elabo¬rado toucado. Dos seus olhos abertos caem lágrimas redondas. Conta-se que chegou no século v, ensinou ao povo técnicas de agri¬cultura e irrigação e ergueu estátuas repre¬sentando indivíduos de barbas e orelhas grandes.
Decorridos menos de 100 anos, segundo as lendas, dirigiu-se à costa ocidental, esten¬deu o seu manto sobre a água, sentou-se nele e desapareceu para sempre.
A segunda pista é a estátua de um homem com o dobro do tamanho natural, que se ergue junto do templo. É designada co 10 O Bispo, e parece segurar um livro, embora tenha sido esculpida centenas de anos antes de haver notícia de a escrita ter sido introduzida na América do Sul.
Com base nestas pistas c nas formas das construções, os arqueólogos deduziram que 2 grupos de invasores intervieram na cons¬trução de Tiahuanaco e do seu império. O 1.° grupo chegou ao planalto pouco antes do ano 450 d. C., dominando uma cultura primitiva anterior existente junto do lago Titicaca. Estes invasores abandonaram a ci¬dade no século VIII, aquando da chegada do 2.° grupo, que mais tarde viria também a desaparecer.
Cerca do ano 1000, o império de Tiahua¬naco unificara pela primeira vez as diversas culturas dos Andes Peruanos. Mas o seu poder declinava, a sua capital encontrava-se em ruínas. O império permaneceria fragmentado durante 200 anos, até ser ramifi¬cado pelos Incas e constituir o núcleo do seu império, que abarcou todo o continente.
Estes os fatos conhecidos. Ignora-se, po¬rém, a identidade, proveniência e o rumo seguido pelos invasores, fatos sobre os quais os historiadores têm apresentado di¬versas teorias.
Uma delas sugere que um navegador grego ou fenício teria atravessado o Atlân¬tico, casual ou intencionalmente, muito antes da viagem de Colombo, em 1492. Já no ano 380 a. C. o escritor grego Theopompus mencionou uma Üha «de extensão imensa» para lá de Gibraltar.
Os anais chineses referem uma viagem, realizada por monges budistas, antes do ano 500 d. C., até uma terra situada a 5000 mi¬lhas de distância através do oceano Pacífico.
Teriam esses monges servidos de modelo para o deus representado a chorar? Ou teria sido Viracocha um monge irlandês? Se¬gundo uma lenda, no século VI, o irlandês S. Brendan navegou para oeste, através do Atlântico, numa pequena embarcação feita de pele de animais. Embora pareça impro¬vável que este monge tenha empreendido a viagem, a verdade é que os monges irlande¬ses percorreram milhares de milhas através do oceano, procurando um local onde pu¬dessem refugiar-se dos Bárbaros, que avan-çavam cm direção a oeste.
O segundo grupo que chegou a Tiahua¬naco pode ter sido constituído por padres portugueses. Sabe-se que um grupo de sa¬cerdotes dirigido por um arcebispo navegou para oeste no ano 734 e descobriu uma ilha a que chamou Antilhas, que poderia fazer parte das índias Ocidentais ou mesmo do Brasil. Alguns destes homens podem ter chegado a Tiahuanaco.
A teoria mais fascinante foi apresentada pelo norueguês Thor Heyerdahl, que ex¬plica não só a proveniência dos deuses como o rumo que os mesmos seguiram.
Em 1947 Heyerdahl demonstrou, reali¬zando ele próprio a viagem com uma tripu¬lação cuidadosamente escolhida, que os ex¬ploradores anteriores aos Incas, do Peru, po¬deriam ter chegado à Polinésia em jangadas de balsa. E demonstrou ainda que as está¬tuas de cabeças quadradas e longas orelhas da ilha de Páscoa apresentam grandes seme¬lhanças com as estátuas cuja autoria foi atri¬buída a Viracocha. A jangada de Heyerdahl foi chamada Kon-Tiki, uma variação do ou¬tro nome de Viracocha: Con-Tici.

Homens do Velho Mundo

Em 1970 Heyerdahl levou mais longe a sua experiência. Construiu um junco de papiro, a que chamou Rã II, no qual navegou de África até Barbados para demonstrar a se¬gunda parte da sua teoria - que o tipo de construções em forma de pirâmide de Tia¬huanaco e outras antigas culturas Sul-ame¬ricanas podia ter sido introduzido pelos Egípcios, que teriam navegado através do Atlântico.
Se for esta a verdadeira teoria, os deuses de barbas que construíram a cidade nas nu¬vens foram homens do Velho Mundo, suficientemente audazes para atravessarem o oceano sobre meros feixes de canas e ma¬deira porosa.

Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

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