segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

À sombra do Vesúvio

Pompéia - uma cidade embalsamada em lava

O homem jazia na rua pavimentada, agarrando ainda com a mão fe¬chada um punhado de moedas de ouro. Talvez fosse um ladrão. Talvez tivesse poupado religiosamente esse dinheiro ao longo dos anos. Ninguém o saberá. Qual¬quer que tenha sido o seu direito ao ouro, foi seu destino apertá-lo entre os dedos por mais de 1500 anos - sepultado sob camadas de cinza e lava até o seu corpo ter sido des¬coberto no século xviii.
Era um cidadão de Pompéia, a estação de veraneio dos romanos abastados, perto da baía de Nápoles, que desapareceu da superfície da Terra, num dia horroroso, 24 de Agosto do ano 79 d. C., quando o Vesúvio entrou em erupção, destruindo a cidade e, simultaneamente, conservando-a para todo o sempre.
Os lojistas fechavam as portas dos seus estabelecimentos para irem almoçar. Algumas jovens conversavam num recanto junto a uma fonte. Um padeiro acabara de introduzir no forno 81 pães. Numa taberna, um cliente pousava uma moeda sobre o bal¬cão e pedia uma bebida. Então, subitamen¬te, o primeiro tremor de terra fez-se sentir.
O taberneiro não tocou no dinheiro. Os pães permaneceram no forno - podem ainda ser vistos, reduzidos a cinzas, num museu de Nápoles.
Muitos fugiram imediatamente, pois o tremor de terra fora apenas a primeira flexão dos músculos do vulcão, Mas outros es¬tavam presos à cidade por laços demasiado fortes para serem quebrados.

A fuga desesperada

Um grupo descoberto assistia, reverente¬mente, ao funeral de um amigo. Outros fo¬ram sepultados quando tentavam enterrar os seus valores. Outros ainda escondiam-se nas suas casas, tentando lutar contra a força impiedosa do vulcão. No entanto, muitos carregaram os seus bens em carros -apenas para serem apanhados em engarra¬famentos junto aos estreitos portões de Pompéia.
Quando o Vesúvio acalmou, 28 horas mais tarde, Pompéia ficara soterrada a 6 m de profundidade e 2000 dos seus 20 000 ha¬bitantes tinham morrido.
A cidade e a sua tragédia foram esqueci¬das ao longo dos séculos. Em 1748, porém, o engenheiro do rei de Nápoles, Alcubierre, resolveu inspecionar um túnel que fora aberto sob o local 150 anos antes para trazer água do rio Sarno, que corre próximo.
Por sorte, a primeira escavação a que pro¬cedeu veio desembocar no bairro comercial de Pompéia e trouxe à luz do dia uma bri¬lhante pintura mural. Outra das suas desco¬bertas foi o corpo do pompeiano que agar¬rava as moedas de ouro. Alcubierre prosse¬guiu com energia, embora de certo modo ao acaso, a escavação no local.
Em 1763 Joseph Winckelmann, o filho de um sapateiro alemão, fascinado pelos segre¬dos de Pompéia, estudou profundamente a história da cidade, da qual se tornou um es¬pecialista. Mas os preconceituosos funcioná¬rios que controlavam o local não lhe permitiram visitá-lo. Winckelmann ignorou a re¬cusa, estudou os achados e subornou um capataz para poder ver as escavações. Graças à sua erudição, adquirida com trabalho ár¬duo, transformou uma mistura confusa de relíquias num registro de 6 séculos de vida da antiga estância de veraneio romana.
Mas Winckelmann foi assassinado por um ladrão em Trieste, em 1767, antes de poder desenvolver o seu trabalho.
Só um século mais tarde o arqueólogo ita¬liano Giuseppe Fiorelli criou a atual meto¬dologia científica que propõe um avanço lento na exploração - casa por casa e rua por rua - que assegure a recuperação de tudo quanto possa revestir-se de interesse.
Surpreendentemente, encontram-se soter¬rados dois quintos da cidade. E o que a lava ainda oculta pode futuramente revelar-se ainda mais admirável do que aquilo que já foi descoberto.

Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

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