segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Seis homens lutaram contra o oceano Antártico

Shackleton - Garantia De Sobrevivência

EM Março de 1916, na praia de uma ilha deserta e gelada do oceano Antártico encontravam-se 28 ingleses, que tiritavam de frio e haviam perdido toda a esperança de sobrevivência. Há 2 anos que pertenciam a uma expedição pela antártica c, após terem percorrido cerca de 3000 km enfrentando a imensidade da neve e os gigantescos bancos de gelo que haviam esma¬gado e afundado o seu navio, o Endurance, 5 meses atrás, encontravam-se exaustos e en¬fermos. Alguns dias antes tinham abando¬nado, nos 3 pequenos barcos que lhes resta¬vam, o banco flutuante onde se haviam aco¬lhido; o seu chefe planejou o caminho para a ilha do Elefante, a sudeste do cabo Horn. E agora até aquele lúgubre refúgio tinham de abandonar.
As rajadas que varriam a praia reduziam a farrapos as suas tendas; os víveres, consti¬tuídos por carne de pingüim c algas mari¬nhas, começavam a esgotar-se. Gelados e es¬fomeados, os homens voltavam-se de novo - como o haviam repetidamente feito ao longo de todo o pesadelo - para aquele cuja calma e coragem até então os salvara.
De elevada estatura c ombros largos, com uma face angulosa sob sobrancelhas escuras, Sír Ernest Shacklcton parecia um grande ro¬chedo pensativo: o rochedo a que os homens se agarram quando perdem a esperança.
«Temos de chegar a um ponto onde um navio possa recolher-nos», disse ele, cal¬mamente. Embora fosse arriscado empreen¬der uma longa jornada num barco pe¬queno, Shackleton pediu voluntários. E to¬dos os homens se ofereceram para tentar a façanha.
Foram escolhidos 5 para acompanhar Shackleton na viagem de 800 milhas até à Geórgia do Sul, através do mais perigoso oceano do Mundo, num barco de apenas 6,50 m de comprimento. Eram eles Worsley, comandante do navio esmagado, Tom Crean. Tímothy McCarthy, McNeish, o carpin¬teiro, e Vincent, o contramestre. Calafetaram e lastraram o James Caird, uma embar¬cação leve que reforçaram, com o mastro de outro barco. Prepararam-se então para partir.
Ao lançarem a embarcação ao mar, 2 ho¬mens caíram pela borda fora e um rochedo abriu no casco uma fenda que os restantes vedaram com uma espicha. Finalmente, ar¬mazenaram as provisões e partiram.
A partida foi difícil. Unia rajada quase trouxe de novo a embarcação para q banco de gelo. Este contratempo grave provocou a seguinte afirmação de Shackleton: «Co¬mandante, se alguma coisa acontecer en¬quanto esses rapazes estão à espera, senti-me um assassino.»
Mas o barco prosseguiu o seu caminho. Sob a coberta de lona havia um espaço limi¬tado onde se acumulavam as provisões e o lastro e os homens se apertavam nos seus sacos de dormir saturados de umidade. Ao findar, como ao recomeçar do dia, os náu¬fragos reencontravam a mesma atmosfera de desânimo e desespero.
«Cada onda que embatia contra o barco curvava-se sobre nós como um arco - es¬creveu Shackleton mais tarde. - De três em três ou de quatro em quatro minutos ficá¬vamos encharcados. Vagas gigantescas caíam sobre nós como se estivéssemos sob uma catarata. Depois, antes de a próxima vaga rebentar, outras ondas rnais pequenas cobriam a embarcação e molhavam-nos de novo. Isto prosseguia dia e noite. O frio era intenso.»
Shackleton, que sofria terrivelmente de ciática, mantinha-se bem disposto. En¬quanto tentava encontrar a posição do barco com o sextante, Worsley tinha de ser seguro por 2 homens, a fim de não ser lançado pela borda fora. Ao fim de uma tarde, através da neblina que esfumava o sol, o comandante descobriu terra - a Geórgia do Sul!
Nessa noite, um temporal violento arre¬messou-os em direção à costa. Tinham tanta sede que dificilmente conseguiam en¬golir, os seus lábios estavam gretados, a es¬puma saltava do barco a grande altura e o vento uivava impiedosamente. Aproxi¬mavam-se de uma ilha minúscula, o que os obrigava a optar entre ancorar ou rodeá-la, em busca de águas mais calmas. «Esta ser¬ve», disse Worsley. «É claro que serve-repli¬cou Shackleton. - Tem mesmo de servir.»
No dia seguinte, o explorador propôs irem a terra e atravessarem a ilha até à esta¬ção de baleeiros que existia do outro lado. Nenhum ser humano sabia o que se ocul¬tava por detrás daqueles glaciares e monta¬nhas cobertas de neve da Geórgia do Sul. Mas Shackleton estava resolvido a tentar atravessá-los; se o seu barco fosse esmagado contra as rochas ao contornar a ilha, os seus homens na ilha do Elefante morreriam.
Desembarcaram nas margens do estreito do Rei Haakon e encontraram uma gruta, onde caçaram e mataram crias de albatrozes, de que se alimentaram; os homens estavam tão esfomeados que até os ossos devoraram. Perto havia uma corrente de água, que lhes soube a néctar. Cobriram umas rochas de folhas e musgo, sobre os quais se deitaram. Pela primeira vez em 2 semanas puderam repousar e dormir.
No dia 19 de Maio de 1916, o tempo cla¬reou, brilhou o luar e Shackleton, Crean c Worsley iniciaram a travessia da ilha, dei¬xando ficar 3 homens que não estavam cm condições de viajar. Os membros do grupo, que Worsley dirigia com a sua bússola, ca¬minhavam ligados entre si. Internaram-se em passagens sem saída, desorientaram-se e quase regressaram ate ao mar, o que os obrigou a retroceder, e estiveram prestes a cair num abismo gigantesco, de 60 m de profundidade e outros tantos de largura.
Finalmente, chegaram a uma crista tão aguçada que poderiam sentar-se nela e balançar as pernas de ambos os lados. O ne¬voeiro e a escuridão impediam-lhes a reti¬rada, mas, se mantivessem imóveis, mor-reriam de frio. Cavar degraus na encosta ge¬lada era uma tarefa tão le.nta que resultava inútil. Depois de ponderar um momento, Shackleton decidiu: «E uni risco do diabo, mas temos de o correr. Vamos deslizar.»
«Cada um de nós enrolou o seu pedaço de corda, formando assim almofadas sobre as quais escorregaríamos - recordou Wors¬ley mais tarde. - Shackleton sentou-se num degrau que cavara e eu pus-lhe os braços em volta do pescoço, agarrando-o por detrás. Crean fez o mesmo cm relação a mim, de forma que ficamos os três unidos como um nó. Então Shackleton arrastou-nos.
Parecia que voávamos pelo espaço. Du¬rante um momento, puseram-sc-mc os ca¬belos em pé. Depois, subitamente, experi¬mentei uma sensação agradável que me fez sorrir. Gostava realmente. Deslizávamos pela encosta de uma montanha íngreme a quase quilômetro e meio por minuto. Gritei de excitação e compreendi que Shackleton e Crean também gritavam. Parecia ridiculamente seguro. Ao diabo os rochedos!
Pouco a pouco a nossa velocidade foi-se reduzindo e acabamos no fundo da encosta num monte de neve. .Levantamo-nos e, so¬lenemente, apertamos as mãos.»
Quando finalmente chegaram à estação de baleeiros, depois de terem atravessado a Geórgia do Sul em 36 horas, os 3 homens tinham um aspecto tão lamentável que o comandante, que os recebera 2 anos antes, os não reconheceu. O cabelo de Shackleton embranquecera. Quando Worsley regressou ao estreito do Rei Haakon para recolher os 3 homens que ali haviam permanecido, tam¬bém estes o não reconheceram. Um banho, a barba feita e roupas limpas haviam trans¬formado a sua aparência anterior.
Todos os homens na ilha do Elefante se encontravam bem, à aparência de um rapaz,
cujos dedos dos pés haviam sido amputa¬dos. Tinham vivido durante 4 meses e 15 dias debaixo de 2 barcos voltados ao contrá¬rio, batidos por furacões e cobertos pelo gelo das montanhas. Assim acabou a última grande expedição de Erncst Shackleton.
A memória da sua odisséia por mar e por terra — uma das mais audaciosas aventuras no Antártico – reflete-se nas palavras de um companheiro de explorações: «Para orientação científica, dêem me Scott; para viagens rápidas e eficientes, Amundsen; mas numa situação desesperada, ajoelhem e re¬zem por Shackleton.

Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

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