sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Sal – O tempero da vida

O sal comum, o tempero humilde sis¬tematicamente presente à hora das refeições, é a matéria-prima da História. É tão vital para a sobrevivência humana que tem provocado guerras, permi¬tido a fundação e causado a ruína de impé¬rios, fomentado o desenvolvimento de civi¬lizações.
A palavra «salário» recorda permanente¬mente a importância do sal. Os legionários romanos recebiam um salarium — uma pen¬são em sal - quando em campanha. Mais tarde, a palavra passou a significar um pa¬gamento cm dinheiro destinado à aquisição de sal, assumindo depois rapidamente o seu significado atual.
Desde os tempos mais remotos o homem compreendeu que o sal representava para si uma necessidade vital, pois assegurava a re¬tenção no organismo de uma percentagem de água que, quando alterada, podia provo¬car a morte por desidratação.
Já as tribos da Idade da Pedra seguiam o gado até depósitos salinos - afloramentos de rochas salinas que os animais haviam locali¬zado para a sua própria sobrevivência. Os seres humanos transportaram o sal das ro¬chas para as suas cavernas até, finalmente, descobrirem uma fonte de fornecimento mais durável - as fontes de salmoura.
Desenvolveram-se culturas primitivas em torno destas fontes em locais como Droit wich, em Inglaterra, no Tirol Francês e em Saale, na Alemanha. Durante milhares de anos, o homem destruiu florestas inteiras a fim de fazer fogueiras e conseguir sal através da evaporação da água.
A procura de sal chegou a alterar paisa¬gens. Os povos antigos apanhavam turfa embebida em água salgada, queimavam-na e recuperavam o sal fervendo as cinzas em água do mar, com o que criaram lagos costeiros.
Enquanto os europeus primitivos trans¬formavam a produção de sal numa das pri¬meiras indústrias, realizavam-se operações semelhantes noutras partes do Mundo. Os primeiros aglomerados populacionais na China estabeleceram-se perto de salinas junto ao rio Amarelo. No vale do Jordão fun¬daram-se aldeias, cerca do ano 8000 a. C., junto ao mar Morto e no monte Sodoma, ambos ricos em sal.
Ao longo de milhares de anos, o desen¬volvimento dos transportes permitiu aos povos afastarem-se das fontes fornecedoras de sal. Os antigos agricultores do Egito, por exemplo, eram abastecidos por barcos, que transportavam o sal dos pântanos da embocadura do Nilo.
O mar tem sido sempre a principal fonte mundial de abastecimento de sal, e o ní¬vel das suas águas tem influenciado diretamente fases significativas da História.
Quando baixam de nível, os oceanos dei¬xam a descoberto reservatórios costeiros c pântanos onde abunda o sal. Quando sobem, os mares inundam estas áreas ricas em sal. No ano 500 a. C., o nível do mar era o mais baixo até agora registrado cerca de 1 m inferior ao atual. Foi esse o período em que as civilizações grega e fenícia, que dispunham de grandes quantidades de sal com que negociavam, atingiram o seu ponto máximo de desenvolvimento. Os Fenícios aumentaram os seus efetivos de sal recolhendo-o em reservas situadas em locais tão distantes como a Península Ibérica.
Cerca do ano 400 a. C., foi aberta em Itá¬lia - onde ainda existe, como a mais antiga estrada do país - a Via Salaris, ou Estrada do Sal, através da qual o sal era transpor¬tado até ao povo sabino, que habitava a re¬gião central de Itália.
O comércio do sal floresceu durante 1000 anos em torno do mar do Norte, do Medi¬terrâneo e do Atlântico. No ano 500 d. C., porém, o nível do mar, que subia progressi¬vamente, ultrapassara em l m o atual. Na Europa, o comércio declinou à medida que as instalações para produção de sai desapa¬reciam sob as ondas invasoras.
Entretanto, os povos árabes, com acesso ao mar Morto, que trocavam o precioso pro¬duto por ouro, mármore e outros artigos de luxo, conheciam uma nova prosperidade.
Os Árabes continuaram a deter este mo¬nopólio comercial até ao século IX, altura em que o mar retrocedeu, permitindo aos Ingleses, Franceses e Holandeses recomeçar a produção de sal. O mar interveio de novo no século XVI, inundando as zonas produto¬ras de sal ao longo dos litorais da Europa. Enormes escavações na costa oriental da In¬glaterra ficaram transformadas em lagos.
Centenas de navios cruzaram os oceanos transportando sal das nações que dispunham de grandes quantidades deste produto para aquelas atingidas pelas inundações. Os ne¬gociantes compreenderam rapidamente que em algumas zonas de África a sua mercado¬ria era considerada mais valiosa do que a li¬berdade do homem, e o sal tornou-se um fator poderoso no comércio de escravos. Famílias do interior, necessitadas de sal, vendiam os filhos como escravos a troco de uma mão-cheia deste produto.
Atualmente, o Mundo consome 80 mi¬lhões de toneladas de sal por ano - em parte proveniente de minas subterrâneas, em parte de rochas ou lagos salgados.
Porém, as salinas do litoral, cuja depen¬dência de uma subida do nível do mar é a mesma a que estavam sujeitas as que foram submersas há séculos, representam ainda 30% desse total. Os nossos descendentes daqui a centenas de anos obterão provavel¬mente o sal de terra que atualmente se en¬contra debaixo de água.
Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

2 comentários:

  1. Olá. Qual é a edição do livro da Reader's Digest você tirou este artigo? Estou utilizando numa pesquisa e preciso da fonte exata. Obrigada!

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