segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Quando O Saara Era Verde

Uma civilização mais antiga que os faraós

Fora das grutas, os soldados aguarda¬vam, montados nos camelos, bocejando e transpirando sob o ardente sol do Sara. No interior, o jovem coman¬dante da patrulha, o tenente Charles Brenans, do Exército Francês, contemplava, maravilhado, as centenas de pinturas disse¬minadas ao longo das paredes terrosas, quentes e secas, das cavernas.
Descobrira, nesse dia do ano de 1933, uma galeria de arte com 8000 anos; o re¬gistro de um povo, há muito esquecido, que habitara o Sara Central quando este era uma planície verde e fértil.
As cavernas encontram-se no planalto atualmente desolado de Tassili-n-Ajjer, 1280 km a sul de Argel. Durante perto de 7000 anos, foram habitadas por uma série de tribos que deixaram as suas 'paredes re-vestidas de reproduções de cenas da vida familiar, caçadas, divindades estranhas, elefantes, rebanhos de gado e ritos religiosos e percorridas por carros onde se vêem guer¬reiros com escudos redondos e lanças.
O ar quente do deserto permitiu a preser¬vação de vestígios de várias eras; caçadores nus com arcos e flechas; soldados de cabeça redonda arremessando lanças; pastores pací¬ficos, envergando mantos e capacetes seme¬lhantes aos egípcios, conduzindo reses de chifres longos e curvos.
Alguns dos animais representados extin¬guiram-se há muito. Outros - o hipopótamo, o rinoceronte, a girafa e a avestruz -apenas se encontram atualmente nas planí¬cies verdejantes, mais de 1500 km a sul,
Profundamente impressionado com o que viu, o tenente Brenans passou a maior parte do tempo da patrulha a reproduzir as pintu¬ras no seu bloco.
Organiza-se uma expedição
O explorador e etnólogo francês Henri Lhote organizou uma expedição à gruta descoberta por Brenans, cujos esboços nela recolhidos o interessaram, bem como a ou¬tros, profundamente.
Com o apoio de agências científicas e go¬vernamentais francesas, reuniu uma equipa de artistas e de fotógrafos que o acompa¬nhassem até ao planalto. Em 1957 a equipa de Lhote levara para Paris cerca de 1500 m2 de cópias e fotografias das pinturas.
As reproduções não foram ainda exausti¬vamente interpretadas. As cenas mais anti¬gas representam uma raça escura, possivel¬mente negros, caçando girafas, rinoceron¬tes e elefantes com arcos e flechas e lanças. Aparecem também figuras enormes, bran¬cas e semi-humanas, possivelmente os deu¬ses das tribos desconhecidas.
Uma de entre estas, com cerca de 6 m de altura, é semi-homem, semi-animal, tem uma cabeça análoga à da tartaruga e olhos colocados numa posição estranha, notavel¬mente semelhante à das personagens das obras de Picasso.
As pinturas mais recentes representam figuras consideravelmente mais realistas. Observam-se claramente pernas arredonda¬das e musculosas, tatuagens tribais decorati¬vas, cintos, diversos enfeites para os torno¬zelos e anéis.
Cenas de banquete
Aparecem também cenas de banquete, ce¬rimônias de casamento, uma mulher va¬zando cereais para fazer farinha, a constru¬ção de uma cabana, uma família com um cão, crianças a dormir cobertas por uma pele de animal e outras cenas domésticas.
Parece que, entre 5000 e 4000 a. C., este povo foi gradualmente suplantado por uma raça mais clara, de pele de cor de cobre. Es¬tes invasores acrescentaram às anteriores pinturas da sua autoria, que representam ce¬nas de caça com cabras montes, girafas e antílopes.
Pinturas ainda mais recentes - do 3.° mi¬lênio a. C. - reproduzem soldados usando túnicas em forma de sino. Eventualmente é este o Povo do Mar mencionado nas antigas crônicas egípcias, proveniente de Creta ou da Ásia Menor, que tentou invadir o Egito.
É possível que, derrotados pelo faraó, os invasores se tenham retirado e estabelecido nas grutas labirínticas do planalto de Tassili.
Uma terra moribunda
Quando os cursos de água começaram a se¬car, a população de Tassili diminuiu gra¬dualmente, e as representações rupestres re¬duziram-se a um escasso número de pintu¬ras, que não deixam de ser claramente reveladoras de uma situação que se agrava pro¬gressivamente.
O camelo substitui o cavalo nas paredes, pois este já não tinha condições de sobrevi¬vência.na terra calcinada pelo sol.
Depois, o silêncio. Impelida pelo vento, a poeira do deserto invade as cavernas aban¬donadas, e durante milhares de anos, en¬quanto noutras partes do Mundo impérios nascem e morrem, as admiráveis pinturas de raças desaparecidas contemplam o vazio dos rochedos batidos pelo sol de Tassili-n-Ajjer.
Até que um dia um jovem soldado de um país distante as descobre, emocionado.

Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

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