segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Prisioneiro Num Inferno Branco

Após uma pesca abundante, o arrastão sucumbiu

A notícia, publicada em diversos jor¬nais locais numa manhã cinzenta de Fevereiro de 1923, era breve e con¬cisa: «Ignora-se o paradeiro do navio de ar¬rasto Sargon, que se supõe perdido com toda a sua tripulação. Foi visto pela última vez ao largo do cabo Norte, no dia 2 de Fe¬vereiro, por outro barco da Standard Fishsing Company, e parecia vir de regresso.»
Algumas semanas antes, os tripulantes do arrastão Sargon, de Grimsby, haviam sido aclamados como heróis. Ao largo da costa norueguesa, na escuridão por entre a tem¬pestade, tinham detectado um tênue foguete a pedir socorro. Obedecendo às instruções do comandante John Patton, o Sargon avan¬çou a toda a velocidade, batido por ondas montanhosas, em direção ao local donde pro¬viera o sinal.
Horas mais tarde, a alvorada invernosa revelou um navio em perigo balouçando desamparadamente no mar agitado. Era o arrastão escocês Ethel Nutton, cuja tripula¬ção, ensopada e exausta, se agarrava à enxárcia gelada. Compreendendo que o navio não resistiria mais de meia hora, Patton vo¬ciferou desesperadamente, pois, enquanto se aproximavam em socorro dos náufragos, as ondas violentas haviam arrebatado o salva--vidas do Sargon, pelo que aqueles homens pareciam condenados.
Sobre as ondas furiosas que separavam os 2 navios, Patton gritou:- «Os meus barcos foram-se. Vou aproximar-me o que puder. Amarrem-se com cabos c atirem as pontas aos meus homens quando passarmos!»

Um salto para a segurança

Patton deixou o Sargon aproximar-se de lado do destroçado Ethel Nutton, sabendo que, se os cascos dos 2 navios se tocassem, por um momento que fosse, naufragariam. Usando de toda a sua perícia, manobrou o Sargon até este se encontrar apenas a alguns metros de distância da popa do Ethel Nut¬ton. Com uma força nascida do desespero, os homens do navio de arrasto adernado lançaram os seus cabos. Nessa primeira ten¬tativa, 3 dos náufragos passaram com segu¬rança para a coberta do Sargon. John Patton repetiu 5 vezes a manobra, e na última ten¬tativa os 2 navios ficaram tão próximos que os homens puderam saltar do Ethel Nutton para o convés escorregadio do Sargon. Os 8 tripulantes do Ethel Nutton estavam salvos. Quando o Sargon desembarcou os sobre¬viventes no seu porto de origem, Granton, na Escócia, Patton desencorajou todas as tentativas para fazerem dele um herói, e 24 horas mais tarde o Sargon fazia-se de novo ao mar, em direção ao cabo Norte da No¬ruega, que dobraria, seguindo para os pes¬queiros no mar Branco.
Depois de ter sido avistado por outro na¬vio de arrasto, no dia 2 de Fevereiro de 1923, o Sargon desapareceu com os seus 12 tripulantes. Em Abril foi oficialmente con¬siderado perdido - os seguros e indenizações foram reivindicados.
Porém, embora a sua perda estivesse a ser chorada, os homens do Sargon estavam vi¬vos, lutando pela sobrevivência num dos mais impressionantes dramas do mar.
A epopéia começou no dia 28 de Janeiro,-uma semana depois de o arrastão ter che¬gado ao seu destino no mar Branco. A pesca não fora abundante e o comandante Patton acabara de decidir regressar ao seu país quando se lhe deparou um inesperado car¬dume. Já não dispunha de muito combustí¬vel, mas poderia encher os depósitos no porto norueguês de Tromso.
Acabou por ser a maior pesca que Patton jamais conseguira. Na noite seguinte, com a quilha baixa devido ao peso do peixe nos porões, o Sargon voltou finalmente a proa ao sul, rumo a Tromsõ, depois ao estuário do Humber c, finalmente, ao seu porto. Mas o gelo flutuante e as rajadas de vento retardavam-lhe a marcha; o carvão nos de-pósitos foi-se esgotando, até que acabou.
Com a escuridão surgiu outra ameaça: neves espessas não permitiam qualquer vi¬sibilidade. Durante 10 dias as rajadas suce¬deram-se, empurrando determinadamente o Sargon para noroeste, para fora das rotas de navegação.
Não havia sequer carvão para alimentar o fogão da cozinha. Amontoados numa pe¬quena cabina, os homens procuravam aque¬cer-se queimando tudo quanto servisse de combustível: redes de pesca alcatroadas, caixotes, madeira dos seus beliches. Mas a temperatura continuava a descer enquanto o arrastão, à deriva, era impelido para norte, à mercê do vento e do mar.

Crise de depressão

Nos finais de Fevereiro o tempo clareou, e o mar cm torno do Sargon gelou, ficando só¬lido. Esgotaram-se as reservas de víveres, o que obrigou os náufragos a alimentarem-se exclusivamente de peixe. Durante dias per¬maneceram imóveis na cabina superlotada, raramente falando.
Patton passava a maior parte do tempo calculando a posição do Sargon, orien¬tando-se pelas estrelas, até que um dia, numa crise de depressão, arremessou o sex¬tante ao mar, convencido da iminência da morte. A partir de então, não conseguiram saber onde se encontravam.
No dia l de Abril Patton subiu ao convés e o seu desespero aumentou. Viu, avan¬çando de ocidente, o que na linha do hori¬zonte se recortava como um perfil de mon¬tanhas cobertas de neve - monstruosos ice-bergs abriam caminho na sua direção.
Hora após hora, a tripulação contemplou, impotente, a cordilheira de gelo que se aproximava, acompanhada de um ruído semelhante ao do trovão. Com um estrondo súbito, a extensão de gelo que rodeava o Sargon quebrou-se sob a enorme pressão. O arrastão balançou subitamente, lançando os homens ao chão, e flutuou na água.
Durante horas, de todos os lados, gigan¬tescas lâminas de gelo erguiam-se no ar c voltavam a cair com uma violência assusta¬dora. Como uma rolha, o Sargon balouçava desamparadamente por entre as enormes massas brancas.
Então o milagre aconteceu. A determi¬nado momento, o Sargon passou, roçando, por uma parede de gelo. No momento se¬guinte, estava no mar largo. O perigo ficara para trás.
O Sargon andou à deriva durante 4 dias, até que no quinto a sua tripulação avistou um navio - o arrastão alemão Schleswig Holstein, O Sargon foi rebocado para Reiquejavique, a partir donde, deteriorado mas orgu-lhoso, navegou por seus próprios meios de regresso a Grimsby. Após 4 meses, John Patton e a sua tripulação tinham regressado dos mortos.

Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

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