segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Marinheiro Que Desafiou A Morte

O seu epitáfio foi uma carta escrita há séculos

COMO os homens que navegaram nos comboios árticos da II Guerra Mundial compreenderam, não existe no Mundo mar mais temível do que o que se estende a norte da Sibéria.
A espuma congela no ar, envolve um na¬vio com os seus cristais e pode afundá-lo sob o seu peso. Fragmentos de gelo afiados como lâminas cortam a roupa e dilaceram a carne. Quem quer que, desprevenidamente, agarre a amurada sem calçar luvas pode fi¬car sem a pele das palmas das mãos- Al-guém que caia pela borda fora morrerá do frio penetrante em escassos minutos.
Este é o mar de Barents, assim chamado em homenagem ao holandês Willem Bar¬ents, que o desafiou e dele foi vítima há perto de 400 anos. O navegador escreveu o seu próprio epitáfio numa carta datada de 13 de Junho de 1597, que introduziu na chaminé da cabana de madeira que construíra numa ilha gelada.
A carta foi ali encontrada decorridos quase 3 séculos, em 1871, por um grupo de baleeiros noruegueses que remou num bote do seu barco até à ilha deserta de Nova Zembla, e relembra uma saga das lutas do homem contra o mar nórdico.
Barents, encarregado pelos mercadores holandeses de descobrir a lendária Passagem do Nordeste para as índias, fez-se ao mar com 2 naus em 1596. Depois de tornear a costa de Spitsbergen, encontrou massas de gelo flutuante que lhe barravam o caminho para norte e decidiu voltar para leste e do¬brar a ponta setentrional de Nova Zembla, trajeto que já percorrera uma vez. O co¬mandante da outra nau, Jan Rijp, recusou-se a segui-lo.

Aprisionado no gelo

Quando a nave solitária de Barents contor¬nou a extremidade da ilha, tornou-se terri¬velmente óbvio que Rijp tivera razão. As massas de gelo aproximavam-se e, final¬mente, aprisionaram a embarcação.
Barents e a sua tripulação, como a carta deixada revelava claramente, enfrentaram os problemas da sobrevivência no Inverno ártico e do regresso à pátria sem o navio.
O primeiro problema resolveram-no cons¬truindo na ilha uma cabana da madeira flu¬tuante que encontraram, que aprovisionaram com alimentos do navio preso pelo gelo e com a carne fresca de raposas árticas que mataram. Obtinham água derretendo a neve num fogão alimentado a madeira.
O frio era um pesadelo. Embora se amon¬toassem junto do fogão, que mantinham aceso noite e dia, os homens tinham as cos¬tas constantemente cobertas de geada. Aque¬ciam as camas com pedras previamente colocadas sobre o lume. De qualquer forma, só 2 deles não sobreviveram ao Inverno.
Com a Primavera, chegou o Sol, que alongava os dias mais l ou 2 horas. Por essa altura, o gelo reduzira o navio a destroços. Os náufragos depositavam a sua única espe¬rança em 2 escaleres.
O próprio Barents encontrava-se por essa altura enfraquecido pelas privações e previa quase certamente a sorte que o esperava. Reuniu as forças que lhe restavam e escreveu 3 cartas, para que, como explicou, o Mundo viesse a conhecer os fatos se ele nunca re¬gressasse. Cada um dos barcos levava uma carta. A terceira foi deixada na chaminé da cabana, onde foi encontrada após 274 anos. Os pequenos barcos contornaram com dificuldade a extremidade setentrional da ilha e dirigiram-se para sul. Quase imediata-mente, uma tempestade ameaçou despeda¬çar as embarcações, que os náufragos tive¬ram de arrastar para cima de um bloco de gelo flutuante. Foi nele que, alguns dias de¬pois, Barents, o único homem capaz de na¬vegar até à Holanda, veio a falecer.

Chegada ao porto de Cola

Quando a tempestade amainou, os outros prosseguiram cegamente a sua viagem, tendo por vezes de arrastar os barcos através do gelo quando este lhes barrava o caminho. De uma vez, o gelo derreteu-se sob uma das embarcações, tendo-se perdido a maior parte das provisões, que caíram à água. Além do frio e da fome, sofriam os tormentos do escorbuto. Decorridas algumas se¬manas, porém, divisaram alguns pescadores russos, aos quais compraram alimentos. Depois de percorrer 1600 milhas através do Ártico em embarcações abertas e sobre¬vivendo a dificuldades terríveis, o pequeno grupo atingiu finalmente o porto de Cola. Ali, com o seu navio, encontrava-se o co¬mandante Jan Rijp, um marinheiro mais cauteloso a quem a ferocidade do mar de Barents infundira respeito.

Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

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