sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Nanotecnologia - A revolução do minúsculo

Manipular diretamente átomos e moléculas é uma tendência da tecnologia, mas ainda faltam alguns anos até que as maiores promessas desse caminho se transformem em realidade
Na casa, janelas de vidro que se limpam sozinhas, No automóvel, espelhos retrovisores que obscurecem assim que recebem um facho de luz, e lataria que retorna sozinha ao formato original, no caso de uma batida. Sobre o corpo, roupas que se mantêm secas mesmo debaixo do mais terrível temporal. E, no organismo, medicamen¬tos inteligentes, que identificam e atacam certeiramente células e tecidos doentes. Esses são apenas alguns dos exemplos do que pode vir a existir graças à nanotecnologia - uma área multidisciplinar da ciência que associa química, física, bio¬logia e engenharia na manipulação direta de moléculas e átomos para a construção de novos materiais e substâncias.
As minúsculas estruturas prometem revolucionar a vida do homem nos mais diversos campos - da medicina ao meio ambiente, da engenharia mecânica à in¬formática. Mas, apesar do entusiasmo de cientistas no mundo todo, e do fato de al¬guns produtos carregando nanotecnologia já existirem no mercado, a técnica ainda está engatinhando para fora dos laborató¬rios - sob o olhar cético e receoso de uma parcela da comunidade científica.

O que é nanotecnologia
A nanotecnologia mexe no mais íntimo da matéria. Usando potentes microscó¬pios ou processos químicos, os cientistas rearranjam, esculpem e moldam átomos e moléculas como se fossem blocos de mon¬tar, de modo a criar substâncias e materiais com propriedades inexistentes na natureza, capazes de se tornar úteis ao homem. Para isso, eles trabalham em dimensões na escala do milionésimo de milímetro (nano, em grego, significa anão).
A natureza é mestra em nanotecnolo¬gia. Uma mesma substância pode adquirir diferentes características dependendo de como seus átomos e suas moléculas são interligados. É o que ocorre com o carbo¬no, que, sozinho, dá origem a substâncias tão diversas quanto o grafite, o carvão e o diamante. Mas copiar esse processo natural não é tarefa simples.
A idéia de manipular artificialmente estruturas moleculares e atômicas não é exatamente nova. Há 50 anos, em de¬zembro de 1959, o físico norte-americano Richard Feynman, Prêmio Nobel de 1965 por seu trabalho em mecânica quântica, apresentou-a numa palestra no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), nos Estados Unidos. O discurso - intitulado "Há muito espaço lá no fundo" - entrou para a história da ciência como o sinal de partida para a corrida nanotecnológica.
De certa maneira, é de se pensar que trabalhar na escala dos nanómetros seria uma evolução natural da tecnologia, que vem reduzindo nas
últimas décadas aparelhos eletro-eletrônicos como rádios, computa¬dores e telefones. No entanto, ainda existem barreira difíceis de superar: o mundo dos átomos é dominado por uma complexa combina¬ção entre as leis e as forças da física que regem o mundo macro (como a gravida¬de) e a física quântica, em que matéria e energia se confundem. A engenharia eletrônica já emprega a quântica para projetar componentes eletrônicos - mui¬tos aplicados nos computadores atuais. Mas o domínio da ciência e da engenharia necessário para construir nanoestruturas mais sofisticadas - como os sonhados nanorrobôs que se autor replicam - ainda deve demorar alguns anos.

Aplicações
Vários produtos do mercado já tem um pezinho na nanotecnologia. Os discos rígidos (HDs) dos computadores atuais, por exemplo, são construídos com base nela. As farmácias já vendem, alguns protetores solares com nanopartículas que impedem o ataque de radiação nociva à pele. Nanopartículas também dão cor a tintas de última geração, aumentando a aderência às superfícies e a durabilidade e diminuindo a toxicidade.
Mas a maior promessa da nanotecno¬logia encontra-se na medicina. Diversos laboratórios estão desenvolvendo partí¬culas que funcionam como verdadeiros médicos-robôs, capazes, por exemplo, de combater tumores. Não são máquinas, exatamente, mas moléculas de substâncias cuja composição química faz com que se liguem a células cancerígenas e cuja estrutura física as torna vulneráveis a certos tipos de radiação. "Se a substância absorver determinado tipo de radiação, podemos bombardear o organismo com ela e, assim, degradar as células do tumor", explica Antônio Ramirez, coordenador do laboratório de mícroscopia eletrônica do Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS), em Campinas.
Recentemente, uma equipe de pesqui¬sadores da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) anunciou o sucesso nos pri¬meiros testes clínicos com um medicamento nanotecnológico que substitui o colírio tradicionalmente usado por pacientes que passam por cirurgia de catarata - doença que causa a opacidade do cristalino e, por conseqüência, a cegueira. O nanocolírio tem o princípio ativo envolvido por uma cápsula de material biodegradável. Apli¬cado diretamente no local da cirurgia, a cápsula vai se desfazendo lentamente no decorrer de 30 dias e liberando a droga, que impede a infecção e a inflamação dos olhos. O feito foi comemorado pelos oftalmologistas, com algumas reservas: apesar de os pacientes que participaram do teste não terem desenvolvido nenhum sintoma colateral, muitos acham que é preciso ainda avaliar a ocorrência de qualquer efeito nocivo num prazo mais longo,

Receios e limites
A eventual toxicidade de produtos desenvolvidos à base da nanotecnologia é um dos principais receios da comuni¬dade científica. "Na verdade, a possibi¬lidade de intoxicar-se com uma droga nanotecnológica é a mesma que a de se intoxicar ingerindo um medicamento tradicional sem receita médica", diz
Variei Rodrigues, professor do Instituto de Física da Universidade de Campinas (Unicamp), que pesquisa nanopartículas. "Daí a necessidade - igual - de dedicar mais anos de estudos laboratoriais e testes clínicos, ainda."
Para Rodrigues, o maior desafio de transformar a nanotecnologia desen¬volvida em laboratório em produto de mercado é de ordem econômica: como aumentar a produção de uma escala experimental, em que bastam poucos gramas, para uma escala industrial, ou seja, toneladas. "O problema é que o salto dos métodos de engenharia tradicional para a nanotecnologia é tão grande que exigiria a desativação e o descarte de estruturas industriais já consolidadas", diz ele. O raciocínio é lógico: enquanto a tecnologia atual render lucros, não há por que investir em novos processos.
Ao lado da Unicamp e do LNLS, ou¬tras grandes universidades brasileiras realizam pesquisa nanotecnológica, como a Universidade de São Paulo (USP) e as universidades federais do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul.

Saiba mais lendo : Atualidades vestibular – editora Abril

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