segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A esquina do mundo mais difícil de dobrar

Homens do mar que sobreviveram para contar a história do cabo Horn

No percurso de qualquer viagem de circum-navegação ergue-se sinis¬tramente um obstáculo natural e assustador - a mais funesta esquina do Mundo. O cabo Horn, a ponta desabrigada e mais meridional do continente americano, outrora a única passagem possível entre o oceano Atlântico e o Pacífico, é um foco onde se concentram os ventos e tempestades mais violentos do hemisfério sul.
Os ventos que sopram através da vastidão imensa do Atlântico Sul, ao longo de mi¬lhares de quilômetros, são defletidos pela muralha alcantilada dos Andes através da abertura estreita entre o cabo Horn e as ilhas Shetland do Sul. As ondas, batidas por in¬termináveis rajadas procedentes do oeste e apoiadas por uma corrente constante em direção a leste, impelem um enorme volume de água através da mesma passagem estreita, na direção oposta. À medida que o leito do mar se ergue asperamente, as vagas atingem alturas assustadoras - superiores a 35 m.
As ondas gigantescas e as rajadas violentas podem durar meses consecutivos. No tempo
das embarcações à vela, o cabo Horn consti¬tuía um desafio terrível - os homens enregelavam ou caíam ao mar, os navios preci¬pitavam-se contra os rochedos ou colidiam com icebergues. Em Dezembro de 1905, o navio British hles levou mais de 10 semanas a abrir caminho através destas águas tempes¬tuosas, tempo absolutamente normal para realizar a travessia.
Para iates e outras pequenas embarcações à vela, estes mares continuam a ser os mais perigosos do Mundo. E evidente que houve homens que os venceram nos seus iates: Chichester, Rose, Blyth, Knox-Johnston. Mas, como declaradamente admitiram, tive¬ram a sorte de não depararem com o cabo Horn nos seus momentos mais difíceis. Por melhores condições de navegabilidade que o iate possua, por mais bem timonado que seja, as suas dimensões não lhe permitem agüentar vagas demasiado alterosas.
Em Janeiro de ,1957, o brigadeiro Miles Smeeton, sua mulher, Beryl, e o seu amigo John Guzzwell partiram da Austrália na galeota de 2 mastros TZÜ Hang com o objetivo de dobrarem o cabo Horn seguindo o «caminho mais fácil», isto é, de oeste para leste. A aventura quase lhes custou a vida. Depois de 7 semanas de navegação rápida e difícil, impelidos por ventos do oeste, aproximaram-se do cabo.

Violência crescente

No dia de S. Valentino (14 de Fevereiro) o mar estava branco da rebentação das águas contra os rochedos e as rajadas eram tão vio¬lentas que as velas foram recolhidas e a em¬barcação seguia com os mastros nus e arrastando à popa 60 braças de corda para a man¬terem controlada.
O barômetro começara a subir, assina¬lando melhor tempo, mas o vento conti¬nuava a aumentar de violência e as vagas quebravam-se com uma força crescente até que uma, mais alta e encrespada que as de¬mais, apanhou o Tzu Hang de popa, co¬briu-o de uma ponta à outra, arrancou am¬bos os mastros do convés, arrastou o teto da cabina, inundou a embarcação e arremes¬sou Beryl Smeeton ao mar, apesar do seu colete de salvação e da corda de segurança.
No entanto, todos sobreviveram. Bcryl conseguiu regressar, a nado, ao iate inun¬dado, e os três esgotaram a maior parte da água e vedaram o buraco com as tábuas de um beliche, a porta de um armário e velas sobresselentes. Depois, quando o vento amainou, improvisaram um mastro e uma vela e navegaram em busca de abrigo em direção à costa chilena. Após 1500 milhas chegaram a Talcuanho, onde os estragos fo¬ram reparados.
Em Dezembro, Miles e Beryl Smeeton fizeram-se de novo ao mar. No Dia de Na¬tal encontravam-se pela segunda vez a ca¬minho de Horn. Mas uma vez mais o ba¬rômetro desceu, enquanto aumentava a vio¬lência do vento e das ondas à medida que o Tzu Hang navegava para sul. Mas agora a rebentação das ondas batia-lhes de lado. Novamente o barômetro deixou de descer quando a tempestade atingiu o auge; mas às 4 horas da madrugada do dia seguinte ao do Natal o iate foi atingido por outra onda monstruosa que o cobriu, desta vez de um lado a outro.
De novo os mastros se quebraram e as escotilhas da cabina foram arrancadas. No en¬tanto, mais uma vez os Smeetons sobrevive¬ram. Tal corno anteriormente, esgotaram a água, içaram as velas de emergência e pro¬curaram abrigo, agora em Valparaíso, a 1100 milhas de distância.
As tempestades do cabo Horn haviam danificado o Tzu Hang 2 vezes sucessivas -e, no entanto, os Smeetons navegavam no Verão c a favor do vento e da corrente.

A bravura de um marinheiro

Navegar contra ventos tão violentos e vagas de tal modo gigantescas é praticamente impossível numa embarcação pequena. No en¬tanto, um francês, Mareei Bardiaux, nave¬gou sozinho em torno do cabo Horn numa pequena embarcação de 9 m, de fabrico ca¬seiro, de leste para oeste e a meio do In¬verno.
No dia 7 de Maio de 1952, Bardiaux aproximou-se do cabo Horn pelo estreito de Lê Maire, entre Staten Island e a costa da Terra do Fogo. Quando o vento sopra contra a maré, a rebentação nesta selvagem extensão de água é suficientemente grande para ameaçar os próprios navios, pelo que Bardiaux esperava penetrar 110 estreito na época em que as águas estão mais calmas. Mas os ventos fortes haviam-no atrasado. A temperatura era de 14° negativos e avizinhava-se uma tempestade. Sentindo-se extremamente cansado, Bardiaux decidiu repousar. O único local onde era possível ancorar era a baía de Tétis, no continente. O mar estava agitado e a baía era varrida por correntes fortes - o único abrigo era uma pequena lagoa no extremo de um canal es¬treito, rodeado de rochedos. A escuridão era total e a maré impelia a embarcação de Bar¬diaux, sem controle, em direção aos penhas¬cos- Como único recurso, o francês lançou 3 âncoras borda fora e ligou um cabo a um rochedo próximo.

Velas geladas

Quando o tempo amainou, encalhou a em¬barcação num banco de areia, a fim de po¬der dormir pela primeira vez em 3 dias. Ao fim de 10 horas zarpou de novo; porém, e devido a uma grande nevasca que caíra durante a noite, as velas estavam geladas e enrijeci¬das, pelo que teve primeiro de as mergulhar na água do mar para as tornar maleáveis.
Inopinadamente, ventos tempestuosos fus¬tigaram a embarcação c, enquanto Bar¬diaux desceu à cabina para ir buscar uma âncora flutuante, 2 enormes vagas cobri¬ram totalmente o iate.
As velas, o teto da cabina e todo o equi¬pamento de natureza frágil foram destroça¬dos ou arrastados, o casco ficou inundado e Bardiaux encharcado - um sério problema com uma temperatura muitos graus abaixo deO°.
Porém, antes de envergar roupas secas, Bardiaux arrastou o cabo de amarração para a popa, a fim de servir de âncora flutuante provisória. Depois esvaziou a água da em¬barcação, içou velas sobresselentes e levou mais 10 horas até ficar devidamente anco¬rado. Decorrido este tempo, sofria de gra¬ves queimaduras em conseqüência do frio e da exposição ao ar.
Salpicos gelados
Depois de uma paragem de 2 dias, o francês retomou a viagem, de novo em direção ao cabo Horn - cego pelos salpicos de espuma gelada e pelo granizo. Velejou durante 48 horas contra o vento e a corrente, fustigado pela neve; em determinada altura, as condi¬ções tomaram-se tão adversas que teve de ferver água para conseguir descongelar as velas.
Finalmente, às 12 e 30 do dia 12 de Maio, Bardiaux olhou para a popa e, com os olhos semicerrados, descortinou, através da neve, o perfil de um promontório. Era uma massa de terra escarpada, ao longo de cujas ravinas estreitas a neve escorria.
Bardiaux compreendeu que deixara atrás de si o cabo Horn, que finalmente conseguira dobrar.

Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

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