segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Do Ártico Ao Pacifico

O tanoeiro que atravessou o Canadá

ENQUANTO os seus companheiros o observavam em silêncio, o es¬cocês, de 29 anos, misturou pigmento vermelho com gordura e escreveu num rochedo a frase que assinalava o mais prodigioso feito de exploração na história da América do Norte: ((Alexandre Mackenzie, do Canadá, por terra, 110 dia 22 de Julho de 1793.»
Embora não tardassem a ser apagadas pe¬las rajadas do Pacífico, estas palavras pro¬clamavam orgulhosamente que, pela pri¬meira vez, homens brancos haviam atraves¬sado o continente.
Mackenzic nascera em Stornoway, na ilha de Lewis, arquipélago das Hébridas, mas crescera na América, para onde o pai o le¬vara após a morte da mãe. Freqüentou a escola em Nova Iorque e Montreal e em¬pregou-se depois na Companhia do Noroeste, uma firma de mercadores de pe¬les com sede em Montreal, que o enviou para o seu entreposto mais ocidental, em Fort Chipewyan, agora em Alberta.

O chamariz do Oeste

A viagem de canoa até lá despertou o seu entusiasmo pela exploração. Mackenzie par¬tilhava da ambição da sua companhia de chegar ao Pacífico e recolher as peles das lontras marinhas, ate então monopólio dos russos da Sibéria.
Estudando cuidadosamente os mapas im¬precisos e deturpados desenhados por outros pioneiros a partir de lendas de índios peles--vermelhas c das deduções das suas próprias imaginações, Mackenzie calculou que os rios que corriam para norte deveriam virar algures cm direção a oeste para desaguarem no oceano. Baseado nesta suposição, no dia 3 de Junho de 1789 partiu em 3 canoas, com mais 13 companheiros, em direção ao norte, seguindo uma corrente que ninguém sabia onde acabava. A sua suposição estava errada: o rio não se desviou para oeste, con¬duzindo-o, pelo contrário, ao oceano Ártico. E o mapa do Canadá passou a assinalar o vasto curso do rio Mackenzic.
Esta descoberta - uma viagem de quase 4600 km em 102 dias -, que poderia ter constituído uma realização suficiente na vida de um homem, apenas serviu para atormentar Mackenzie, para quem o ca-minho para o Pacífico, o seu objetivo pri¬mário, continuava a ser uma incógnita.
No Verão de 1792, enquanto Mackenzie estudava navegação em Inglaterra, os seus homens construíam um acampamento na margem do rio da Paz.
No Inverno seguinte ele juntou-se e, nos primeiros dias da Primavera, partiram num total de 10 homens, numa frágil canoa de casca de vidoeiro.
A viagem decorreu sem dificuldades até o grupo encontrar as águas turbulentas do desfiladeiro do rio da Paz, que atravessa 40 km das Montanhas Rochosas. Tornou-se impossível remar a canoa, de 7,5 m, que tinha de ser empurrada à vara, arrastada por uma corda ou transportada ao longo dos penhascos escorregadios.

A escolha de Mackenzie

Pouco depois de ter passado o desfiladeiro e voltado a navegar de canoa, o grupo deteve-se ante uma enorme bifurcação do rio - no local onde foi construída a barra¬gem do lago Wiliiston.
Deveriam seguir para noroeste, ao longo do curso principal do rio, largo e de aparên¬cia segura - agora o rio Finlay -, ou ir para sul, através do estreito, veloz e peri¬goso afluente - atualmente o rio Parsnip? Lembrando-se das palavras de um velho ín¬dio que lhe afirmara que o braço cm dire¬ção ao norte descia de impenetráveis mon¬tanhas, inacessíveis a qualquer homem, Mackenzie, contra a opinião unânime da sua tripulação, escolheu o afluente.
As dificuldades que a navegação oferecia provocaram o descontentamento dos ho¬mens, entre os quais a revolta começava a surgir, quando foram detidos por um grupo de índios sekani. Através dos seus intérpre¬tes, Mackenzie descobriu que o rio seguia para sul e se juntava a outro que corria para o «lago pestilento».
Ultrapassada a Grande Divisória

Era esta a primeira vez que o grupo ouvia mencionar água salgada. Prosseguiram, até que o rio se dissolveu num braço de pe¬quenos regatos. No dia 12 de Junho a canoa foi retirada da água e transportada às costas através de urna colina ate um pequeno lago. Os homens brancos tinham finalmente ven¬cido a Divisória Continental.
Tiveram ainda de reparar com casca de árvore a canoa, que colidira contra um ro¬chedo, antes de chegarem finalmente ao rio Fraser, através do qual navegaram em segu¬rança para oeste.
Subitamente, uma chuva de setas partiu da margem. Mackenzie ordenou ao grupo que não disparasse e desembarcou sozinho na praia. A sua jogada audaciosa resultou, e os índios aceitaram presentes de colares e de facas que lhes ofereceu.
Mackenzie descobrira os Carriers, índios guerreiros, povo cujas viúvas usavam às
costas os ossos dos maridos mortos. Os ex¬ploradores souberam por eles que o rio Fra¬ser desaguava no oceano, mas que existia um caminho mais rápido, seguindo por terra em direção a oeste, até outro rio.
Embora estivessem em pleno Verão, os homens tremiam de frio quando deixaram a canoa para atravessar a pé as montanhas Arco-iris, cobertas de neve; só decorridos 13 dias desceram para o vale quente do rio Bella Coola. índios amigáveis empres¬taram-lhes 2 canoas e, a 20 de Julho, os 10 homens remaram através de um labirinto de ilhas até ao canal de Dean, uma enseada cos¬teira a norte da atual Vancouver.
Dois dias mais tarde, Mackenzie gravava a sua mensagem na face voltada a sudeste de um dos penhascos e iniciava a viagem de regresso. Decorridos apenas 33 dias, a 24 de Agosto, o explorador completava uma fa-çanha inédita. Atingira tanto o oceano Ártico como o oceano Pacífico, c regressara sem a perda de uma única vida.

Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

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