segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Como os Fenícios contornaram a África

Ninguém acreditou nos Fenícios quando eles afirmaram - 2000 anos antes de os Portugueses descobri-rem a África Ocidental - que tinham con¬tornado por mar o Continente Negro, do Suez ao estreito de Gibraltar.
Foram objeto de troça quando insistiram que, ao terem dobrado o atual cabo da Boa Esperança, o Sol do meio dia ficava ao norte. Todos os homens do mundo antigo sabiam que o Sol se encontrava sempre e invariavelmente na parte sul do firmamento. Assim acontece, efetivamente, no hemisfé¬rio norte.
Mesmo Heródoto, o grande historiador grego que escreveu a história dos Fenícios 150 anos mais tarde, considerou esse relato um logro. No entanto, os Fenícios, povo aventuroso, realizaram de fato a viagem que descreveram. E a prova mais convin¬cente de me o fizeram para os historiadores modernos ! exatamente a mesma afirmação que convenceu o mundo antigo da falsidade do relato: a referência de que viam o Sol à sua direita quando navegavam em direção a oeste, contornando o cabo da Boa Espe-rança.

A idéia do faraó

Nem mesmo os exploradores fenícios pode¬riam ter adivinhado que a posição relativa do Sol nas águas temperadas do Mediterrâ¬neo, a norte, seria diferente a sul do Trópico de Capricórnio. Jamais lhes ocorreria a in¬venção de uma prova tão pouco convin¬cente, se não a tivessem realmente vivido. A viagem fora planeada cerca de 600 a. C. por um faraó egípcio, Necho, interessado na possibilidade de navegar da costa sul do Egito, no mar Vermelho, até Alexandria, ao norte. Em vez de construir um canal através do deserto (como Ferdinand de Lêsseps faria 2400 anos mais tarde ao abrir o canal de Suez), Necho pensou que seria sim¬ples contornar a costa sul de África até che¬gar a Marrocos.
Como os Egípcios não eram marinhei¬ros consumados, contratou tripulações e uma pequena frota fenícias, esta última constituída por barcos puxados a 50 remos. Ordenou-lhes que descessem o mar Ver¬melho e contornassem o continente afri¬cano até às Colunas de Hércules, atualmente conhecidas pelo nome de estreito de Gibraltar.

Rumo ao desconhecido

Aos Fenícios agradou sobremaneira a oportunidade que se lhes oferecia de desco¬brirem uma nova rota para os seus mercados ocidentais, evitando as águas dominadas pe¬los seus rivais gregos. Mas nem eles nem Necho suspeitavam sequer da forma nem da vastidão do continente que se interpunha no seu caminho.
De acordo com as modernas reconstituições da sua viagem, os Fenícios zarparam em Novembro - remando rumo à extremi¬dade oriental de África, o cabo Guardafui, antes de voltarem para sudoeste aprovei¬tando a monção.
Durante vários meses prosseguiram ao longo da costa - cobrindo distâncias até en¬tão nunca alcançadas, esperando constan¬temente que o litoral se desviasse para oeste e para norte, indicando-lhes o caminho de regresso. Porém, e para sua consternação, a direção da costa permanecia invariavel¬mente a mesma.
Em compensação, notavam com preo¬cupação que o Sol se desviava no céu em di¬reção ao norte. O seu sistema de orientação falhava. E a Estrela Polar desapareceu com¬pletamente. Preparavam-se para desistir quando, finalmente, a costa se desviou em direção a oeste.
Sulcaram os mares ao longo das 500 mi¬lhas que correspondem à extremidade meri¬dional do continente, até que em Maio do ano seguinte àquele em que haviam partido dobraram o cabo da Boa Esperança, verifi¬cando que a costa seguia em direção ao norte.
Aliviadas, as tripulações detiveram-se para plantar algum do trigo que haviam levado consigo. Em Dezembro zarparam de novo, de regresso ao seu país, abastecidas com a colheita - verificando que, dia após dia, o Sol parecia subir progressivamente mais alto no céu.
Levaram, pelo menos, mais 10 meses, en¬frentando as maiores dificuldades, até contornarem o lado noroeste de África, detendo-se mais uma vez algures cm Marrocos para se reabastecerem de víveres, antes de encontra¬rem o familiar estreito de Gibraltar.
Decorridos mais de 2 anos depois de ha¬verem partido do mar Vermelho, e após te¬rem percorrido 16 000 milhas de oceano, os Fenícios navegaram triunfal mente através do Mediterrâneo em direção ao Egito, tendo realizado uma façanha recebida por 2000 anos de incredulidade.

Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

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