segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

As viagens de Marco Polo

Uma aventura de 25 anos no império de Kublai Khan

O espetáculo era assombroso para um jovem de 20 anos. Ali, à sua frente, encontrava-se a cidade mais magnificente que ele jamais contemplara e cuja beleza podia levar os habitantes a imaginarem-se no paraíso. Havia caminhos elevados, parques públicos, marinas, canais com centenas de pontes em arco, muitas das quais tão elevadas que permitiam a passa-gem sob elas de navios com mastros. A ci¬dade, extremamente desenvolvida, dispunha de sistemas subterrâneos de drenagem, bri¬gadas de polícias c bombeiros e um eficiente serviço postal.
Algo de surpreendente . . sobretudo para um jovem que viveu há 700 anos. Foi ele Marco Pólo, um dos grandes aventureiros da História; e a magnificente Hancheu era apenas uma das cidades do poderoso império de Catai, o nome com que a Europa de então designava a China.
Marco Pólo registrou no seu diário a supe¬rioridade de Hancheu em relação a todas as outras cidades do Mundo. Considerava-a mais bela ainda do que Pequim, a capital do imperador.
Marco Pólo pertencia a uma família vene¬ziana de viajantes. Onze anos antes de ele próprio chegar a Catai, em 1275, seu pai, Nicolo, e seu tio, Matteo, já tinham reali¬zado a viagem, prometendo ao imperador, antes de partirem para Veneza, que regressa¬riam, o que fizeram levando consigo o jo¬vem Marco, então de 17 anos.
A viagem, que durou 3 anos, foi difícil. Navegaram através do Adriático até Ayas, uma pequena cidade no golfo de Iskendcrun, seguindo depois por terra, a cavalo, até Ormuz, no golfo Pérsico. Atravessaram se¬guidamente a Pérsia até Balkh, de onde subi¬ram o aito Oxus até Wakhan, através do planalto do Pamír. Dirigiram-se então a Kashgar, Yarkand e Khotan, atravessaram o deserto de Gobi e penetraram na China por Su Chou.
Marco registrou no seu diário as dificulda¬des que enfrentaram para vencerem cordi¬lheiras de montanhas geladas, chuvas torrenciais, tempestades de areia, inundações e ava¬lanchas. No Afeganistão uma doença de Marco atrasou-os um ano. Bandidos e guer¬ras locais obrigaram-nos a descrever nume¬rosos desvios e a alterar constantemente os planos estabelecidos; mas tudo Marco regis¬trou nos seus valiosos cadernos.
Pedras que queimavam
Marco Pólo escreveu sobre os locais maravi¬lhosos e as estranhas gentes que encontrou. Surpreenderam-no os «filões de pedras negras que, quando incendiadas, ardiam como carvão e desprendiam um considerá¬vel calor». Viu «urna substância jorrando do solo e usada para queimar em lâmpadas» e examinou «um material que era possível fiar e tecer c que não ardia se lançado ao fogo». Descreveu crocodilos como «enormes ser¬pentes com dez passos de comprimento e com mandíbulas suficientemente grandes para engolirem um homem» c iaques como «gado selvagem, que pode ser comparado a elefantes». Os cocos eram «nozes do ta¬manho da cabeça de um homem, de sabor agradável e brancas como o leite».
O jovem obteve as boas graças do impe¬rador, que o levava consigo em caçadas, no dorso de elefantes reais, e lhe concedia toda a liberdade para freqüentar os seus opulentos palácios de mármore c as suas es¬tâncias de repouso de Verão. Marco sentia--se ofuscado pelas esculturas douradas, os tesouros artísticos e as galas dos cortesãos que serviam o imperador. Escreveu que de 2 em 2 anos eram enviados emissários à procura de 100 ou mais belas concubinas para manter o harém bem fornecido.
Porém, Marco dispunha de pouco tempo de ociosidade, preferindo estudar os hábitos de Catai. Foi o primeiro homem do Oci¬dente a descrever pormenorizadamente o império e os seus países limítrofes e tam¬bém o primeiro a assinalar num mapa a rota através do continente asiático.
Enquanto seu pai e seu tio faziam fortuna no comércio de mercadorias, Marco dedi¬cou 17 anos ao serviço do imperador, que fez dele seu emissário especial e o enviou em missões através do império. Durante este período, Marco visitou lugares como a Cochinchina, a Birmânia c a índia. Mais tarde, serviu 3 anos como governador da opulenta cidade de Lancheu, um centro de fabrico de armas, tendo 24 cidades sob a sua jurisdição. E, finalmente, foi comissário do conselho imperial do soberano na capital.
Nessa época, porém, o governante tinha mais de 70 anos de idade e os Pólos teme¬ram pela sua segurança no caso de ele mor¬rer e assumir o poder qualquer dos seus ri¬vais. No começo de 1292, em navios espe¬cialmente fretados sob instruções do impe¬rador, partiram do porto de Zaitun.
Quando chegaram a Veneza - depois de uma ausência de 25 anos -, ninguém os re¬conheceu, nem mesmo os seus próprios criados, que lhes recusaram a entrada em casa, pois há muito os consideravam mor¬tos.
Para convencerem os Venezianos da sua identidade, os 3 Pólos ofereceram uni ban¬quete e, depois de os seus convivas - que ainda duvidavam da identidade dos anfi¬triões c do relato das suas aventuras - se te-rem saciado, envergaram as suas roupas tártaras, gastas pela viagem, que. em seguida descosturaram pelas costuras, fazendo cair uma chuva de pedras preciosas. Este gesto foi considerado uma prova concludente da ve¬racidade das suas palavras, pois para os Venezianos apenas o imperador da China po-deria ter-lhes concedido tais riquezas. Durante 3 anos os Pólos viveram em Ve¬neza uma vida agradável. Porém, após uma feroz rivalidade comercial entre as repúbli¬cas de Veneza e Gênova degenerar em guerra aberta, Marco viu-se rapidamente envolto na contenda. Quando servia como comandante de urna galé, foi capturado com a sua embarcação e encarcerado na cidade de Gênova.
No entanto, conseguiu ainda aproveitar bem o tempo. Recorrendo aos diários amarelados das viagens, ditou as suas recor¬dações a um companheiro de cárcere. Quando foi pela primeira vez publicado, O Livro de Marco Pólo foi denunciado como uma narração falsa, desprovida de funda¬mentos.
Mesmo no seu leito de morte, em 1324. Marco não cedeu às instâncias de um sacer¬dote que lhe pedia que se retratasse de de¬terminadas afirmações consideradas mentirosas. E as suas últimas palavras foram: «Não contei metade daquilo que vi.

Fonte: O grande livro do maravilhoso e do fantástico – Reader´s Digest

Nenhum comentário:

Postar um comentário